Lendo sobre o Curtas pela blogosfera
Por Hugo Torres| Julho 15, 2008 | 9 Comentários
Em breve passeata pela blogosfera, é fácil encontrar algumas considerações sobre o Curtas. Registamos algumas, abrindo caminho pelas entrevistas que Manuel Halpern publica no Blogue do JL a Rodrigo Areias [Corrente], a Miguel Clara Vasconcelos [Instantes] e a José Maria Vaz da Silva [Caravaggio], depois de já ter escrito sobre os favoritos do JL. João Lopes, no sound + vision, escreve primeiro sobre «sentimento de diversidade» que teve depois de ver as primeiras curtas-metragens portuguesas, depois sobre o fulgor de Sam Taylor-Wood e ainda tece algumas considerações sobre Sokurov. Rui Chaby, no Duelo ao Sol, escreve sobre a passagem de Manoel de Oliveira por Vila do Conde (com fotos) e tece algumas considerações sobre o palmarés da 16ª edição do festival. No Teatro Anatómico, Manuel Jorge Marmelo escreve sobre Dennis, do dinamarquês Mads Matthiesen, e, no Colina Sagrada, Samuel Silva dá algumas achegas ao debate sobre a cultura vilacondense, traçando um curto paralelismo com Guimarães.
Estes são, certamente, meros exemplos. Outros, plurais, serão bem-vindos e listados. Em modo de comentário ao nosso próprio levantamento e citação de fontes, perguntaremos se o facto de serem todos espaços de gente ligada aos meios de comunicação tradicionais é ainda sintoma da velha norma, ou se o defeito é mesmo do nosso olho. Explicamos: Manuel Halpern é jornalista do Jornal de Letras, João Lopes do Diário de Notícias, Manuel Jorge Marmelo e Samuel Silva do Público, e Rui Chaby é comentador de cinema na Rádio Clube do Minho.
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Premiados chegam ao Porto, Coimbra e Figueira da Foz
Por Hugo Torres| Julho 14, 2008 | 8 Comentários
Os filmes premiados no Curtas vão andar a passear pelo país, vão mostrar-se às gentes. Que é como quem diz: o festival terá extensões no Porto, em Coimbra e na Figueira da Foz. A agenda detalhada pode ser consultada aqui.
Produção brasileira arrecada Grande Prémio – lista de vencedores
Por Hugo Torres| Julho 13, 2008 | 6 Comentários

Competição Internacional
Grande Prémio Cidade de Vila do Conde:
Muro, de Tião (Brasil) [imagem]
Melhor Animação:
RGBXYZ, de David O’Reilly (Irlanda)
Melhor Ficção:
The Adventure, de Mike Brune (EUA)
Melhor Documentário:
Three of Us, de Umesh Kulkarni (Índia)
Melhor Filme Experimental:
Ah, Liberty!, de Ben Rivers (Reino Unido)
Melhor Vídeo Musical:
Plaster Casts of Everything/ Liars , de Patrick Daughters (EUA)
Prémio UIP/ Vila do Conde
Love You More, de Sam Taylor-Wood (Reino Unido)
Prémio do Público
Corrente, de Rodrigo Areias (Portugal)
Competição Nacional
Corrente, de Rodrigo Areias
Take One!
Annual Report, de Cristina Braga
Menção Honrosa:
Aleluia, de Fábio Ribeiro
RTP2/ Onda Curta
Love You More, de Sam Taylor-Wood (Reino Unido)
Les Paradis Perdus, de Hélier Cisterne (França)
Chainsaw, de Dennis Tupicoff (Austrália)
Menção Honrosa:
Sag Es Mir Dienstag, de Astrid Ofner (Áustria)
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Voto Competição Internacional 9: Yuki Kawamura
Por José Luís Costa| Julho 12, 2008 | 32 Comentários

Último dia do festival. Última sessão competitiva. Último filme. Votação máxima do RASCUNHO. Faísca do jovem realizador japonês Yuki Kawamura reúne tudo. Um filme completo e comovente. Boas imagens, planos e enquadramentos que retratam a essência da estória, interpretações genuínas e personagens muito bem construídas. Uma boa ideia, uma óptima história, um bom argumento e uma realização excelente.
O enredo é simples. Yu vive com os pais uma vida tranquila no campo. É uma criança que todos os dias descobre as novidades da vida. A infância, o nascimento de um irmão, a afectividade, o medo, a morte. Durante 37 minutos os espectadores são convidados a acompanhar estas descobertas por uma criança. A companhia não podia ser melhor, não podia ser mais fiel, não podia ser mais íntima, não podia ser mais nossa, não podia sermos mais nós.
Sublime.
Voto Competição Internacional 8: Hélder Cisterne
Por José Luís Costa| Julho 12, 2008 | 2 Comentários

A oitava competição internacional terá sido aquela em que, por momentos, nos fez duvidar se estaríamos num festival de uma capital europeia. O atraso no visionamento da primeira curta impede-nos de a poder avaliar com igualdade nesta corrida. Mas pelo que vimos podemos constatar que o documentário Os mestres enlouquecidos de Sacha Pohle e a curta-metragem Love you more do britânico Sam Taylor Woon são películas a ter em conta nesta temporada.
O Brasil continua cada vez mais a dar cartas na 7ª arte, deixando os portugueses envergonhados a vários níveis. Muro, do realizador Tião, é marcado por uma óptima filmagem, uma boa fotografia, cenas intensas e situações que retratam uma crueldade que sustém a respiração das personagens e do público. Mensagem forte, crítica e bastante pertinente. O calcanhar de Aquiles está na forma como o argumento foi apresentado, em algum exagero na realização dos planos e na interpretação final do actor. Só por isso, o voto do RASCUNHO recai no cinema francês: Les Paradis Perdus de Hélder Cisterne.
A estória começa com os distúrbios do Maio de 68 na Sorbonne. Uma adolescente do secundário chega a casa os pais abalada com os acontecimentos. Os pais da jovem decidem ir para a casa de campo para acalmar os ânimos. Isabelle teima em ficar na cidade e entra em conflito constante com a mãe, mas acaba por ceder às ordens do pai. Os três acabam por partir de Paris. Uma família de classe média-alta que enfrenta o período conturbado dos anos 60. O pai sempre foi um bom patrão para os trabalhadores, tem agora a fábrica confiscada pelos operários. No dia do seu aniversário decide abandonar o lar para resolver o tumulto na empresa. Isabelle insiste em acompanhá-lo para falar com os trabalhadores. Os pais proíbem. A jovem entra no carro do pai, esconde-se na mala e viaja para um destino diferente. Um mundo de proibições, de felicidades escondidas, de segredos e de preconceitos. No regresso a vergonha acaba por se sobrepor à sobrevivência.
Hélder Cisterne aborda de forma simples e natural um tema que poderia tornar-se ridículo. Em relação às interpretações dos actores não há nada a apontar. As personagens são densas e o trabalho dos actores não cai em estereótipos. Nas cenas de maior conflito o naturalismo das interpretações confirma a forma sublime como os franceses abordam os temas mais bizarros e os tabus. É a surpresa que marca o ritmo da estória. E as questões. Sempre a questões a quebrarem os muros da moralidade dos anos 60 e os de hoje. A técnica passa despercebida, serve a realização e história. Esquecemo-nos do trabalho de quem filma e do realizador. Fica a estória na memória. Faz-se cinema.
Voto Competição Nacional 3: Miguel Vasconcelos
Por Hugo Torres| Julho 12, 2008 | 2 Comentários

Em 2005, Miguel Vasconcelos saiu de Vila do Conde com o prémio para a melhor curta-metragem portuguesa, pelo documentário Boxe. Ontem, voltou ao festival para apresentar Instantes, um misto de documentário e ficção, em competição. Visto o terceiro bloco nacional competitivo, o RASCUNHO não tem outra alternativa: escolhemos esta peça e escolhemos, sobretudo, convictos.
O filme retrata a realidade da violência doméstica em Portugal (apenas?), servindo-se das histórias cruzadas de dois casais – um, ainda apaixonado, ainda em escapadelas nocturnas, amando – mas onde já se vai notando a usura –; o outro, já gasto, acabado, separando-se, discutindo os papéis, discutindo os filhos, quem sabe, amando outros já. O marido (o do segundo casal) não está contente com a separação e desespera e embrutece, perde a cabeça e logo encontra os punhos, ensanguentados, na cara da esposa; segue, sozinho, para a ponte. É encontrado pelo primeiro casal, que regressa. Negoceiam a vida, sem saber como: eles com ele, ele com ele próprio.
A narrativa, a nossa, dos dias, também é isto: instantes que nos assolam sem licença, instantes sem razão, aflitos, desconexos, inexplicáveis e, ainda assim, inexpugnáveis: a fúria logo impregnada de arrependimento ou a necessidade de parar o carro e chorar para uma ponte que nem conhecemos. Quem nos diz ao que andamos?
Instantes é um belo filme, que peca apenas pela escrita dos diálogos, que redundam quase na ridicularização dos actores. É pouco para retirar-lhe mérito, mas é suficiente para deixar cair a mestria. O que nos frustra. Especialmente com um elenco que nos parece acima da média em relação ao que temos visto nas produções nacionais. A cena do espancamento, essa, tem um impacto fortíssimo – apenas encontra par no final com os relatos incisivos de algumas vítimas de violência doméstica, assustadoramente resignadas à situação, sem esperança. E talvez a violência maior seja mesmo essa.
Voto Competição Internacional 7: Sascha Pohle
Por José Luís Costa| Julho 12, 2008 | 2 Comentários

O cinema experimental marcou a sétima competição internacional. O voto do RASCUNHO vai para a curta-metragem If I were you – Las Vegas New York Blackpool, um filme experimental alemão de Sascha Pohle.
Apesar da técnica ter sido descurada, o filme vale pelo tema que aborda e pela tónica colocada na questão da imitação. Pessoas e cidades que crescem com a identidade de outros.
Três sósias de Robert De Niro são as personagens principais. A câmara segue os três homens. Na sala, no quarto, na varanda, ao espelho, na cidade e até no táxi. Cenas que estabelecem um paralelismo com as imagens de Scorsese de 1974. Em 2007 Pohle filma de forma bastante rudimentar, mas captura momentos reais que passam para a tela as estórias no seu estado puro. Os tiques, os movimentos do corpo, a linguagem, as expressões e os trejeitos são ensaiados nas acções diárias. As vidas passam a ser ensaios. As imitações tomam conta da essência individual de cada um. Deixa de haver vida própria. Tudo se mistura, transforma e imita, a identidade das pessoas e até das cidades: Las Vegas New York Blackpool.
Voto Competição Nacional 2: Jorge Silva Melo
Por José Luís Costa| Julho 12, 2008 | 1 Comentário

A escolha do RASCUNHO para o segundo bloco da competição nacional vai para a estreia de Jorge Silva Melo como realizador.
A Felicidade é uma curta-metragem que poderia facilmente cair na lamechice ou em lugares comuns. O início antevê mais um filme português de pura contemplação em que a imagem assume a ditadura da narrativa sem qualquer ritmo. O mar, o céu, o infinito, a felicidade… Puro engano. Uma história simples. Um encontro entre pai e filho durante uma viagem de carro pela marginal Cascais–Lisboa. É Mozart e a música clássica que marcam o ritmo do velocímetro no meio de uma conversa entre duas gerações. Afinal o filho tinha os gostos do pai. Ele não sabia. Afinal é o filho que guia o pai. Ele deixa. Afinal é o filho que proíbe os vícios do pai. Ele obedece com carinho. No final é o pai que vê a felicidade. O filho não. Estava distraído e despediu-se sem saber.
Fernando Lopes diz que não é actor. «Sou um performer, como dizia Shakespeare.» No papel que desempenha não há nada a apontar. Com ou sem personagem, a interpretação foi conseguida na plenitude, pois toda ela foi feita com verdade. O mesmo se aplica ao restante elenco. A realização adapta-se ao enredo. Os planos e os enquadramentos prestam-se ao ritmo da narrativa. Por vezes, a explicitação de determinados momentos torna-se desnecessária, pois a mensagem está implícita em situações e acções que falam por si. A narração final pode ter sido uma nódoa na primeira pintura que Jorge Silva Melo trouxe para a tela da sétima arte.
O encenador dos Artistas Unidos é um estreante na realização do cinema, mas é um criador com vasta experiência na área do teatro contemporâneo português, quer como encenador quer como dramaturgo.
Voto Competição Internacional 5: Martin Rit
Por José Luís Costa| Julho 11, 2008 | Sem Comentários

Na competição internacional 5 a escolha do RASCUNHO recai no filme francês La neige au Village (A neve na aldeia), da autoria de Martin Rit. A única curta apresentada com um enredo narrativo digno desse nome.
As personagens nascem nos caminhos de um parque. Os bancos de jardim podem guardar muitas histórias e ser o palco para a intimidade. Este enredo centra-se sobretudo em três personagens: uma jovem sentada no banco do jardim a ler um livro enquanto aguarda os resultados de um exame, um rapaz ruivo de t-shirt preta que estranhamente deambula pelo parque, um jovem que está deitado na relva a conversar ao telemóvel enquanto observa os outros dois. A rapariga abandona o banco e uma pastilha elástica que deposita no caixote do lixo. O jovem ruivo recupera a chiclete, passa a ser ele a saboreá-la e persegue a estudante até casa. O outro rapaz termina a conversa ao telemóvel e entra na perseguição para proteger a rapariga. Cria-se uma perseguição a três. Os três encontram-se. Sempre dois a dois. Os papéis invertem-se. A obsessão toma conta dos três. O sonho confunde-se com a realidade e a expectativa aumenta ao longo da acção.
Cinema simples, boa realização, planos e enquadramentos ao serviço da história sem cair na redundância e com uma estética harmoniosa. A imagem serve a acção e os 49 minutos de película são curtos para matar a curiosidade do espectador. Martin Rit desperta o sono do público e os bocejos espalhados um pouco por todo o auditório (muito por culpa do seu compatriota F.J. Omarg). A ciclicidade de determinados momentos da acção torna o enredo aliciante. O ritmo da narrativa prende os espectadores do início ao fim e as interpretações dos actores são conseguidas em toda a sua plenitude. Não há registo de estereótipos, nem julgamentos. A construção das personagens espelha a verdade das pessoas do dia-a-dia. Afinal um tarado pode ser um curioso, um apaixonado, um pintor, um poeta, ou nós mesmos.
Voto Competição Nacional 1: Zepe
Por José Luís Costa| Julho 11, 2008 | Sem Comentários
A técnica cinematográfica portuguesa evolui ano após ano. Os conteúdos, a originalidade dos argumentos e a acção dramática é que parecem sofrer de ataraxia ano após ano. E o mal alastra-se de realizador em realizador. Excepção feita para Zepe (José Pedro Cavalheiro) que obteve o voto do RASCUNHO na primeira sessão competitiva das curtas nacionais.
Cândido retrata uma estória de amor desencontrado entre um homem e uma mulher. Dois adultos aprisionados pela vida urbana, com um cão à mistura. O amor de Cândido nunca existiu e a manipulação é o jogo do dia-a-dia.
Na animação de Zepe não há lugar para a palavra. Nem é preciso. Cinema minimalista mas recheado de mensagem e dramatismo nas ilustrações e no movimento criado ao longo da acção. O traço cada vez mais pormenorizado das personagens e o lado caricatural transmitem ao espectador o perfil psicológico dos protagonistas da narrativa. A música acompanha a dança dos desenhos. As notas não vêm do arquivo, nascem ao mesmo tempo que a ilustração e dão um ritmo apropriado à realização final.
Zepe não é novo nestas andanças. Os trabalhos de animação são mais conhecidos na televisão. Nas curtas da sétima arte a obra tem sido bem acolhida pela crítica em vários festivais internacionais. Um ilustrador… um realizador com um trabalho de animação cinematográfico cada vez mais maduro.
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